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MAMA

O que é câncer de mama?

Câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do câncer de pele não melanoma. O câncer de mama responde, atualmente, por cerca de 28% dos casos novos de câncer em mulheres. O câncer de mama também acomete homens, porém é raro, representando menos de 1% do total de casos da doença. Relativamente raro antes dos 35 anos, acima desta idade sua incidência cresce progressivamente, especialmente após os 50 anos. Estatísticas indicam aumento da sua incidência tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. Existem vários tipos de câncer de mama. Alguns evoluem de forma rápida, outros, não. A maioria dos casos tem bom prognóstico.

Para o ano de 2018, foram estimados 59.700 novos casos de câncer de mama no Brasil.

O sintoma mais comum de câncer de mama é o aparecimento de nódulo, geralmente indolor, duro e irregular, mas há tumores que são de consistência branda, globosos e bem definidos. Outros sinais de câncer de mama são:

  • edema cutâneo (na pele), semelhante à casca de laranja;
  • retração cutânea;
  • dor;
  • inversão do mamilo;
  • hiperemia;
  • descamação ou ulceração do mamilo;
  • secreção papilar, especialmente quando é unilateral e espontânea.

A secreção associada ao câncer geralmente é transparente, podendo ser rosada ou avermelhada devido à presença de glóbulos vermelhos. Podem também surgir linfonodos palpáveis na axila.

  • Esses sinais e sintomas devem sempre ser investigados, porém podem estar relacionados a doenças benignas da mama.
  • A postura atenta das mulheres em relação à saúde das mamas, que significa conhecer o que é normal em seu corpo e quais as alterações consideradas suspeitas de câncer de mama, é fundamental para a detecção precoce dessa doença.
  • Como prevenir o câncer de mama?

     

    A prevenção do câncer de mama não é totalmente possível em função da multiplicidade de fatores relacionados ao surgimento da doença e ao fato de vários deles não serem modificáveis. De modo geral, a prevenção baseia-se no controle dos fatores de risco e no estímulo aos fatores protetores, especificamente aqueles considerados modificáveis.

    Os principais fatores de risco comportamentais relacionados ao desenvolvimento do câncer de mama são: excesso de peso corporal, falta de atividade física e consumo de bebidas alcoólicas.

    Estima-se que por meio da alimentação, nutrição e atividade física é possível reduzir em até 28% o risco de a mulher desenvolver câncer de mama. Controlar o peso corporal e evitar a obesidade, por meio da alimentação saudável e da prática regular de exercícios físicos, e evitar o consumo de bebidas alcoólicas são recomendações básicas para prevenir o câncer de mama. A amamentação também é considerada um fator protetor.

    A terapia de reposição hormonal (TRH), quando estritamente indicada, deve ser feita sob rigoroso controle médico e pelo mínimo de tempo necessário.

    Qual o tratamento para o câncer de mama?

    Para o tratamento de câncer de mama, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece todos os tipos de cirurgia, como mastectomias, cirurgias conservadoras e reconstrução mamária, além de radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e tratamento com anticorpos.

    A lei nº 12.732, de 2012, estabelece que o paciente com neoplasia maligna tem direito de se submeter ao primeiro tratamento no SUS, no prazo de até 60 dias a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso.

    É importante reforçar que, para que o prazo da lei seja garantido a todo usuário do SUS, é necessária uma parceria direta dos gestores locais, responsáveis pela organização dos fluxos de atenção. Estados e municípios possuem autonomia para organizar a rede de atenção oncológica e o tempo para realizar diagnóstico depende da organização e regulação desses serviços.

    O tratamento do câncer de mama é feito por meio de uma ou várias modalidades combinadas. O médico vai escolher o tratamento mais adequado de acordo com a localização, o tipo do câncer e a extensão da doença.

    Como é feito o diagnóstico para o câncer de mama?

    Um nódulo ou outro sintoma suspeito nas mamas deve ser investigado para confirmar se é ou não câncer de mama. Para a investigação, além do exame clínico das mamas, exames de imagem podem ser recomendados, como mamografia, ultrassonografia ou ressonância magnética. A confirmação diagnóstica só é feita, porém, por meio da biópsia, técnica que consiste na retirada de um fragmento do nódulo ou da lesão suspeita por meio de punções (extração por agulha) ou de uma pequena cirurgia. O material retirado é analisado pelo patologista para a definição do diagnóstico.

    A detecção precoce é uma forma de prevenção secundária e visa a identificar o câncer de mama em estágios iniciais. Existem duas estratégias de detecção precoce: o diagnóstico precoce e o rastreamento. O objetivo do diagnóstico precoce é identificar pessoas com sinais e sintomas iniciais da doença, primando pela qualidade e pela garantia da assistência em todas as etapas da linha de cuidado da doença.

    O diagnóstico precoce, portanto, é uma estratégia que possibilita terapias mais simples e efetivas, ao contribuir para a redução do estágio de apresentação do câncer. Assim, é importante que a população em geral e os profissionais de saúde reconheçam os sinais de alerta dos cânceres mais comuns, passíveis de melhor prognóstico se descobertos no início. A maioria dos cânceres é passível de diagnóstico precoce mediante avaliação e encaminhamento após os primeiros sinais e sintomas.

    Já o rastreamento é uma ação dirigida à população sem sintomas da doença, que tem o intuito de identificar o câncer em sua fase pré-clínica. Atualmente, apenas há a indicação de rastreamento aos cânceres de mama e do colo do útero.

    O que é a reconstrução mamária?

    O procedimento de reconstrução mamária, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), é oferecido apenas para mulheres com câncer que tiveram que retirar a(s) mama(s) ou parte(s) dela(s). Dessa forma, a rede pública de saúde oferece integral e gratuitamente os procedimentos de recuperação pós-mastectomia.

    A reconstrução mamária deve ser feita de acordo com a possibilidade clínica e preferência da mulher. A orientação, conforme previsto na Lei nº 12.802, é que a cirurgia de reconstrução, prioritariamente, seja realizada na retirada da mama. No entanto, de acordo com a própria legislação, quando não houver indicação clínica para realização dos dois procedimentos ao mesmo tempo, a paciente será encaminhada para acompanhamento e terá garantida a realização da cirurgia após alcançar as condições clínicas necessárias. Essa é uma medida de segurança e bem estar, adotada ou não conforme cada caso.

    Sendo assim, cabe à equipe médica responsável pela paciente avaliar se é possível realizar os dois procedimentos no mesmo ato cirúrgico. A decisão é tomada com base em diversos fatores, como a condição da área afetada para evitar infecção ou rejeição da prótese e a vontade da própria paciente. Em alguns casos, é necessária a radioterapia ou quimioterapia antes da reconstrução mamária ser realizada.

    CÂNCER DE MAMA: ENTENDA AS DIFERENÇAS ENTRE PREVENÇÃO E DETECÇÃO PRECOCE

    19.02.2019

    A prevenção e a detecção precoce do câncer de mama são essenciais para reduzir o índice de mortalidade da doença, mas antes de entrar especificamente nesses assuntos, é preciso compreender melhor como essa doença se desenvolve. O câncer de mama é resultado da multiplicação anormal e desordenada de células da mama, formando um tumor. Esse comportamento das células é provocado por uma alteração genética, que pode ser herdada (o que ocorre apenas em cerca de 10% dos casos) ou espontânea, provocada ao longo da vida.

    Os estudos sobre câncer ainda não chegaram em uma resposta para explicar com precisão as causas do surgimento da doença nos casos de alteração genética espontânea. O que se sabe é que existem fatores de riscos modificáveis e não modificáveis que têm relação direta com as chances de uma pessoa desenvolver o câncer de mama.

    Entre os fatores de risco não modificáveis, em especial para as mulheres com idade acima dos 35 anos, estão: menstruação precoce; primeira gravidez após os 30 anos; não ter filhos; menopausa depois dos 50 anos – considerada tardia; histórico familiar, sobretudo se um parente de primeiro grau, como mãe e irmã, teve a doença antes dos 50 anos.

    Estes fatores são potencializados se a mulher se expor aos chamados fatores de risco modificáveis. Entre eles estão o tabagismo o consumo de álcool; sedentarismo e a obesidade. Também existem fatores chamados ambientais como uso de estrógenos, exposição à radiação ionizante ou ultravioleta, além de contato com certos produtos químicos e agentes infecciosos.

    O que é a prevenção do câncer de mama?

    Quando se fala em prevenção do câncer estamos tratando de estratégias para reduzir o risco de que a doença se desenvolva. A prevenção, em geral, atua sobre os fatores de risco modificáveis, portanto inclui mudanças de hábito que envolvem evitar o consumo excessivo de álcool, não fumar, praticar atividades físicas, ter uma alimentação saudável e evitar exposição aos riscos ambientais. Em conjunto, essas ações diminuem significativamente as chances de uma pessoa desenvolver câncer de mama. No entanto, mesmo que essas medidas sejam colocadas em prática, ainda existe a possibilidade, embora reduzida, do câncer de mama se manifestar.

    Existe um grupo específico de mulheres portadoras de mutação genética hereditária que aumenta a predisposição ao surgimento do câncer de mama. A mutação mais comum é conhecida como BRCA. Para identificar a presença de mutação, essas mulheres precisam atender a um conjunto de características e realizar testes genéticos com acompanhamento de geneticista. Se comprovado o risco aumentado, é possível conduzir medidas preventivas adicionais. Nesses casos, a paciente e o médico devem avaliar as possibilidades, que podem ser mais ou menos invasivas e assegurar índice maior ou menor de redução de risco para a doença. Algumas medidas possíveis são a quimioprevenção, que consiste na administração de medicamentos como o tamoxifeno antes que a doença se manifeste para reduzir sua chance de desenvolvimento, e a cirurgia profilática, que consiste na retirada preventiva das mamas para evitar a formação de um tumor.

    O que é a detecção precoce do câncer de mama?

    A prevenção reduz as chances do câncer de mama se manifestar, mas infelizmente nem sempre é possível evitar completamente seu surgimento. É por isso que aliar prevenção à detecção precoce do câncer de mama é fundamental.
    A detecção precoce do câncer de mama consiste na realização de exames que têm como objetivo garantir que a doença seja detectada o mais rápido possível, em sua fase inicial. Nessa etapa, os esforços não se direcionam a evitar que o câncer se manifeste, e sim a investigar se ele está presente, para possibilitar que o tratamento inicie o mais rápido possível em caso positivo. Por isso, os exames para detecção precoce não devem ser chamados de preventivos no caso do câncer de mama.

    O câncer pode se manifestar antes que os sintomas sejam aparentes ou identificados pelo paciente e é por isso que manter os exames em dia faz toda a diferença. É importante ter em mente que quanto mais rápido o câncer de mama é diagnosticado e tratado, maiores são as chances de cura, com tratamentos menos invasivos para a paciente e com investimento menor e mais eficiente para a gestão pública.

    Entre as estratégias de detecção precoce está o rastreamento do câncer, política de realização de exames na população de risco, em pessoas ainda sem sintomas No Brasil, a Lei 11.664/2008 define que a mamografia de rastreamento deve ser realizada anualmente em todas as mulheres com idade entre 40 e 69 anos, estratégia defendida pela FEMAMA e pela Sociedade Brasileira de Mastologia. Porém, o Ministério da Saúde adota como diretriz uma portaria posterior, que define que apenas mulheres entre 50 a 69 anos realizem o exame de rastreamento, com o máximo de dois anos entre os exames.

    Além da mamografia de rastreamento, a detecção precoce do câncer de mama pode ser feita em consultas ao ginecologista através do exame clínico (palpação da mama pelo profissional de saúde), e por exames de imagem que possam ser solicitados pelo médico, como mamografia, ultrassonografia ou outros. Esses exames não são considerados preventivos, pois sua função é identificar um possível tumor que já esteja presente, para então agir rápido através do tratamento mais adequado a cada caso.

    O autoexame é uma prática de autoconhecimento sobre o corpo, mas não substitui os exames de detecção precoce. Ele é importante para que as mulheres conheçam bem o seu corpo e identifiquem com facilidade qualquer alteração suspeita nas mamas, podendo assim procurar um médico o mais rápido possível para a realização de um exame diagnóstico.

    Prevenção x detecção precoce

    As estratégias de prevenção e detecção precoce do câncer de mama tem o mesmo objetivo: reduzir a mortalidade pela doença, mas atuam por vias diferentes. A primeira quer que as pessoas adotem hábitos saudáveis e evitem a exposição a fatores ambientes de risco para reduzir as chances da doença se desenvolver, bem como analisem estratégias profiláticas em casos de risco muito elevado para a doença geneticamente detectado. Já a segunda quer que as pessoas descubram a doença, caso presente, cada vez mais cedo, para que possam se tratar tendo em vista maiores chances de cura. As duas fazem parte de frentes diferentes para o combate à doença e precisam estar aliadas no combate ao câncer de mama.

    A importância da prevenção no câncer de mama

    O alerta foi dado no início deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O câncer de mama se tornou a forma de tumor maligno mais diagnosticada no mundo, com 2,3 milhões de casos registrados em 2020, ou 11,7% do total. O mesmo estudo mostrou que o número de mulheres que estão vivas após serem diagnosticadas com essa doença nos últimos cinco anos era estimado em quase 8 milhões no ano passado, maior do que os sobreviventes de qualquer outro tipo de câncer. Segundo especialistas, os dados expõem duas certezas: o câncer de mama tem avançado, mas os tratamentos que permitem a cura ou melhoram a qualidade de vida das pacientes também estão evoluindo.

    Para Fabiana Makdissi, diretora do departamento de Mastologia do hospital A. C. Camargo, a constatação dessa maior incidência é uma soma de fatores. “O câncer é uma doença degenerativa, portanto ligada ao envelhecimento da população. No caso do câncer de mama, ser mulher e estar envelhecendo já é um fator de risco. Mas também é verdade que a população está cada vez mais obesa, as mulheres estão tendo filhos mais tarde e estão expostas às questões hormonais por mais tempo”, explica.

    Daniela Dornelles Rosa, presidente do Grupo Brasileiro de Estudos em Câncer Mama (GBECAM), também destaca os fatores reprodutivos como parte da explicação. Segundo ela, comportamentos que eram considerados protetores no passado se modificaram. “Exigências do mercado de trabalho nas últimas décadas levaram as mulheres a postergar a gestação, terem um número menor de filhos e a amamentarem por menos tempo”, lista a oncologista do Hospital Moinhos de Vento.

    Fatores modificáveis

    Essas mudanças nos fatores reprodutivos que ocorreram nas últimas décadas fazem parte do processo natural de evolução da sociedade, mas os médicos alertam que há outros fatores comportamentais que são modificáveis que poderiam ajudar a frear o crescimento da incidência do câncer de mama. Os exemplos são os hábitos alimentares e o sedentarismo – que levam ao sobrepeso –, além do consumo de álcool e do tabagismo.

    Makdissi afirma que já há evidências que relacionam o consumo de gorduras saturadas e de açúcares presentes nos “sugar drinks” como refrigerantes a casos de câncer de mama. Ela sugere que uma mulher na idade da menopausa não deveria ganhar além de 10 quilos em relação ao seu peso quando jovem.

    Segundo Marina Sahade, oncologista e vice-diretora clínica do Hospital Sírio-Libanês, uma dieta mais equilibrada não só reduz o risco de contrair a doença como ajuda no tratamento e melhora a expectativa de vida das pacientes. Ela cita uma pesquisa recente da Sociedade Americana de Oncologia Clínica que relaciona obesidade com maior mortalidade por câncer de mama.

    Além dessa prevenção considerada primária, os médicos ressaltam a importância do rastreamento precoce do câncer, que deve ser feito por meio de mamografias periódicas. De acordo com Rafael Kalikis, oncologista do Hospital Albert Einstein, a recomendação da OMS é que 70% da população elegível (mulheres na menopausa) realizem esses exames. Caso esse patamar fosse atingido e os tratamentos fossem disponibilizados a tempo, haveria redução de 15% a 20% na mortalidade.

    A aderência a esse tipo de rastreamento pela rede pública no Brasil é baixa, em torno de 20% a 25% da população, e isso piorou durante a pandemia de covid-19. Daniela Dornelles Rosa sugere que é preciso que a rede de saúde se adapte à realidade das mulheres que trabalham, às vezes em mais de um emprego, e faça um ampliação de horários e de dias para a realização de exames, como nos finais de semana. “É preferível cuidar da saúde a cuidar da doença”, afirma.

    Embora as principais sociedades de medicina defendam a realização de exames anuais para mulheres assintomáticas a partir dos 40 anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) restringe esses exames preventivos para a faixa etária dos 50 aos 69 anos e com periodicidade bianual. Um projeto legislativo, que reconhece o pedido dos médicos e revê essa política do Ministério da Saúde, foi aprovado em 2019 pelo Senado e agora está em trâmite nas comissões da Câmara dos Deputados.

    Pandemia reduziu procura por mamografia

    Estudos nacionais e internacionais comprovam que a identificação precoce de um câncer de mama possibilita chance de cura de até 95%. Por isso, além da prevenção a respeito dos fatores de risco, os médicos batem com insistência na tecla da importância do rastreamento por meio da realização de mamografias periódicas. Infelizmente, a pandemia de covid-19 reduziu muito a procura pelos exames preventivos, o que pode acarretar aumento de casos.

    Estudo realizado pela mastologista Jordana Bessa, da Oncologia D’Or, apontou uma queda de 42% no número de mamografias realizadas pelo SUS em 2020 em relação ao ano anterior, especialmente a partir de abril, quando a maioria dos estados adotou medidas de distanciamento social. Ela também encontrou evidências de que a proporção de caroços palpáveis encontrados nos exames ​​foi significativamente maior no ano passado, o que pode indicar grau mais avançado da doença.

    Ainda que os dados da rede particular não sejam consolidados, os efeitos podem ter sido similares na rede conveniada. O Núcleo de Mama do Hospital Moinhos de Vento apresentou uma estimativa ainda mais preocupante: queda de 90% na procura por exames de diagnóstico nos primeiros meses da crise sanitária e redução de 35% nos tratamentos iniciais de radioterapia.

    Para Jordana Bessa, a lição nessa pandemia e em possíveis crises futuras é que o adiamento desse tipo de exame é muito perigoso. “Temos que nos adaptar, porque as pandemias não têm previsão de término. As salas de exame já estão liberadas e adaptadas. Não podemos ficar esperando.”

    Bem informadas têm maior adesão ao tratamento

    Como protagonistas e participantes de decisões médicas, elas se fortalecem para as batalhas

    Se por um lado os diagnósticos de câncer de mama cresceram no século 21, por outro é nítida a mudança positiva na cena das consultas oncológicas, com a medicina compartilhada e o empoderamento da paciente. Ao se perceber dona de suas escolhas, a mulher tem mais liberdade para desmistificar a doença e, questionar formas de tratamento, e se sente fortalecida para enfrentar os percalços que virão, ficando menos suscetível a abandonar os cuidados com a saúde.

    A nova relação médico-paciente surgiu devido ao avanço tecnológico que facilitou o acesso ao conhecimento sobre doenças em diversas plataformas digitais. “Muitas pacientes chegam informadas, querendo participar. Não faz sentido uma medicina de cima para baixo, em que o médico diz o que fazer, e a paciente obedece”, diz Alessandra Morelle, oncologista e pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). Para ela, o papel do profissional é o de um consultor, que vai usar seu conhecimento na discussão de prós e contras de medidas a serem adotadas.

    Oncologista da Rede D’Or e chefe do grupo de oncologia mamária do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Laura Testa concorda que a medicina paternalista é arcaica e diz que pacientes que se apropriam de sua condição aderem mais aos tratamentos. Às mais tímidas, ela sugere três perguntas básicas para se situarem de como está sua saúde. São elas: Que tipo de câncer eu tenho? Qual o estágio da minha doença? Qual tratamento eu vou fazer?

    Autonomia e engajamento

    Cada câncer de mama é enfrentado de um jeito, podendo requerer práticas como radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia (bloqueio hormonal) e terapia- -alvo, além de cirurgia. Um tratamento pode levar de oito meses a um ano – uns mais, outros menos tempo. Nos resultados, sabe-se que pacientes com tumores de até 2 cm e axila negativa quando tratadas têm chance de mortalidade equiparada à da população sem câncer, como aponta César Cabello, coordenador da área de Mastologia do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Para o especialista, até para determinados casos mais avançados, com tecnologia e novas drogas, tornou-se possível falar em controle. “Há mulheres que vivem muitos anos com qualidade, como se tivessem uma doença crônica, como diabetes.”

    A descoberta de um tumor traz angústia e incerteza. A paciente merece ser orientada quanto ao que existe de maior eficácia e menos efeitos colaterais. “Mulheres esclarecidas participam mais do tratamento”, diz o mastologista. No entanto, salienta, é preciso seguir evidência científica e ética. “Muitas mulheres falam: ‘doutor, eu não quero morrer, retire as duas mamas’. Mas poucas têm indicações para esse procedimento.” Ele conta que, depois de muito esclarecimento, elas entendem que quase sempre é sensato conservar a mama.

    Morelle atenta para a autoestima. “As mamas têm um simbolismo forte para a mulher. Por mais que os tratamentos sejam menos invasores, ela tem uma perda gigante. Quando a gente consegue colocar essa paciente no centro das decisões do tratamento, isso ajuda a aliviar o sofrimento emocional e aumenta o engajamento dela.”

    A qualidade de vida tende a ser mais complicada para quem não assume as rédeas. A quimioterapia pode antecipar sintomas de menopausa, e a etapa da hormonioterapia pode acentuá-los. Com essa sobrecarga colateral, 30% das pacientes abandonam a medicação de bloqueio hormonal ou não a tomam com a frequência ideal. “Mas não comunicam nada; isso se descobre em exames sanguíneos”, diz Morelle.

    Já a protagonista quer ficar boa logo, e procura formas de amenizar sintomas das terapias, seja investindo em atividade física para não perder músculo, alimentação adequada, psicoterapia, meditação e apoio de organizações não governamentais (ONGs). O mundo digital também está a favor de sua autonomia. Criado por Alessandra Morelle, o aplicativo Tummi ajuda brasileiras a organizarem sua rotina de cuidados oncológicos e a agirem rapidamente em situação de risco. E há plataformas – como o www.coletivopink.com – que trazem conteúdo esclarecedor para dar voz à paciente.

    Empatia deve nortear condutas médicas

    Ao receber um diagnóstico de câncer, seja qual for, 30% das pessoas entram em choque emocional. A doença é rotulada como mortal e, nos tumores mamários, por mais que as mulheres estejam mais esclarecidas sobre tratamento, chance de cura e de sobrevida, a descoberta de um tumor pode fragilizar bastante. A acolhida no consultório e a conduta empática da equipe multiprofissional farão diferença na jornada dessa paciente.

    Laura Testa, do Icesp, afirma que as consultas devem ser transparentes, mas com tato. “Estudos mostram que, ao falar uma palavra que impacta muito, como câncer ou quimioterapia, o pensamento da paciente vai longe, e ela não consegue absorver direito o que está sendo falado.” A médica sugere que essas indagações partam da paciente ou sejam deixadas mais para o final do encontro, quando alguns temas já foram conversados.

    Nas consultas para falar sobre recidiva, a oncologista diz que é fundamental uma conversa empática porque, na cabeça da paciente, o que se passa é a culpa. “Temos de tranquilizar a paciente, explicar que isso aconteceu não pelo que ela fez ou deixou de fazer. Aconteceu porque a doença foi mais esperta do que a gente.”

    A médica Cristiana Tavares, oncologista da Rede D’Or e professora na Universidade de Pernambuco, aponta uma particularidade a ser considerada frente aos diagnósticos de tumor mamário. “Temos de ser cuidadosos em nossas abordagens, porque no Brasil não se pode adotar a mesma conduta dos consultórios americanos, britânicos, germânicos. A dinâmica tem de ser outra, porque o povo latino é mais sensível, mais passional”.

    Outra orientação que ela segue e transmite aos seus alunos é enxergar as pacientes como pessoas individualizadas. “Não estamos recebendo um par de mamas! Cada paciente que chega tem sua história de vida, seus traumas, sua cultura, sua história conjugal.”

    Na abordagem de Cristiana Tavares, ela procura mudar o enfoque da paciente sobre seu diagnóstico. “Eu digo que existem várias mortes em vida; e a gente pode morrer e renascer várias vezes. Pode ser que essa dor, esse impacto, venha para a gente fazer uma avaliação e promover mudanças. A doença vem como uma forma de transformação.”

    Fonte: Estadão